O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, tornou-se um dos personagens centrais da terceira fase da Operação Carbono Oculto, investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e uso de estruturas do mercado financeiro em negócios ligados ao setor de combustíveis.
Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos, foi um dos alvos da Operação Crédito Oculto, deflagrada no dia 24 de setembro pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e pela Receita Federal, com participação de outros órgãos estaduais.
A operação cumpriu mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e empresas em sete estados. Segundo a Receita Federal, o objetivo é esclarecer a utilização de estruturas financeiras complexas para ocultar os verdadeiros beneficiários da aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
Qual é o papel atribuído a Mineiro
De acordo com informações reunidas pelo Ministério Público, o grupo empresarial ligado a Mineiro teria disponibilizado sua estrutura societária, financeira e de pagamentos para movimentações relacionadas ao grupo investigado.
Na representação que embasou as buscas, o MP-SP apontou o Grupo Entre como possível prestador de serviços financeiros utilizados para lavagem de capitais por integrantes da organização investigada. A suspeita é de que essas estruturas tenham criado camadas destinadas a dificultar a identificação da origem dos recursos e dos beneficiários finais.
A Receita Federal não identifica nominalmente todos os investigados em sua nota oficial, mas afirma que um operador financeiro, responsável por fintechs e outras empresas, teria empregado a infraestrutura de seu grupo empresarial na movimentação de recursos e na criação de mecanismos adicionais de ocultação da titularidade de uma usina sucroalcooleira.
Segundo os investigadores, essa estrutura teria sido utilizada posteriormente na operação financeira relacionada à aquisição de uma distribuidora de combustíveis.
R$ 11,6 bilhões movimentados
Um dos principais dados apresentados pela Receita Federal é o volume financeiro associado à empresa investigada.
Segundo o órgão, a companhia utilizada na estrutura relacionada à aquisição da empresa sucroalcooleira movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
Para os investigadores, o volume, analisado em conjunto com outros elementos da apuração, reforça os indícios de que estruturas financeiras e de investimentos teriam sido utilizadas para ocultação patrimonial, dissimulação da origem dos recursos e lavagem de capitais.
A Receita também identificou uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios. Segundo o órgão, parte da movimentação teria ocorrido de maneira circular, por intermédio de fundos de investimento, criando aparência de legitimidade e dificultando a identificação de quem efetivamente controlava os recursos.
570 prêmios e R$ 176 milhões
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores envolve registros de premiações em apostas.
De acordo com informações de um relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), divulgadas durante a investigação, Antônio Carlos Freixo Júnior aparece como beneficiário de aproximadamente R$ 176 milhões em 570 prêmios e apostas entre 2020 e 2025.
A movimentação foi classificada como suspeita no material utilizado pelo Ministério Público para fundamentar as diligências. Isso, porém, não significa que cada prêmio individual tenha sido considerado irregular nem representa, por si só, uma condenação por lavagem de dinheiro.
Também são investigadas movimentações em dinheiro vivo e operações imobiliárias relacionadas ao empresário e às empresas do grupo.
Relação com o caso Banco Master
O nome de Mineiro já aparecia em outra investigação de grande repercussão nacional: o caso envolvendo o antigo Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro.
Freixo firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República, posteriormente homologado pelo Supremo Tribunal Federal. A Entre Investimentos também aparece nas apurações sobre operações financeiras realizadas a pedido de Vorcaro.
A sobreposição de empresas, fundos e operadores que aparecem nas investigações do caso Master e da Carbono Oculto levou os investigadores a examinar com maior profundidade as conexões entre diferentes estruturas financeiras.
Entre também aparece em financiamento de filme
O Grupo Entre ainda aparece entre as empresas envolvidas em movimentações financeiras destinadas ao projeto cinematográfico “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo reportagens baseadas no acordo de colaboração de Freixo, recursos foram enviados ao exterior por determinação atribuída a Daniel Vorcaro. Essas informações integram outra frente investigativa e não significam que o financiamento do filme, por si só, constitua irregularidade.
Operação investiga estruturas do mercado financeiro
A Operação Crédito Oculto procura esclarecer como mecanismos aparentemente regulares do sistema financeiro teriam sido utilizados para dificultar o rastreamento de recursos.
A Receita afirma ter identificado uso de fundos de investimento, empresas intermediárias, certificados bancários e fundos imobiliários em operações que poderiam ter ocultado os verdadeiros proprietários de empresas e patrimônio.
Em uma das estruturas investigadas, R$ 100 milhões foram aportados em um fundo de investimento. Posteriormente, segundo a Receita, uma operação envolvendo certificado de depósito bancário vinculado e cédulas de crédito teria permitido capitalizar empresas utilizadas na aquisição da distribuidora de combustíveis, escondendo os beneficiários finais.
A operação alcançou endereços relacionados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas, com diligências em São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Defesa não comenta investigação
Procurada após a operação, a defesa de Antônio Carlos Freixo Júnior informou que não se manifestaria sobre as diligências.
Em outra manifestação, seu advogado afirmou que não comentaria o episódio em respeito à confidencialidade do acordo de colaboração celebrado com a Procuradoria-Geral da República e homologado pelo STF.
As investigações seguem em andamento. As afirmações sobre lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e participação em organização criminosa correspondem, até o momento, às linhas investigativas apresentadas pelas autoridades e não equivalem a uma condenação judicial definitiva.
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