O interior da Bahia pulsa arte, pensamento crítico e invenção. Pulsar que muitas vezes é invisibilizado por uma lógica concentradora, que insiste em olhar apenas para os grandes centros. É justamente contra essa lógica que iniciativas como o Projeto Entroncamento se erguem: como espaço de encontro, de circulação e de afirmação da produção artística do Agreste de Alagoinhas e do Litoral Norte.
Vivemos um tempo em que a cultura precisa ser defendida não apenas como expressão simbólica, mas como direito, trabalho e política pública estruturante. O Entroncamento nasce nesse cruzamento fundamental entre arte, educação e território, reconhecendo que os artistas do interior não são “periféricos” — são centrais para a diversidade estética, cultural e social da Bahia e do Brasil.
A chamada pública aberta pelo projeto é mais do que um edital. É um convite à ocupação de espaços, à partilha de narrativas e à construção coletiva de sentidos. Ao selecionar artistas e coletivos para uma exposição em Alagoinhas, com bolsa de participação, o Entroncamento reafirma algo essencial: produzir arte também é trabalho, e trabalho precisa ser valorizado.
Num país marcado por desigualdades regionais profundas, fortalecer a produção artística fora dos grandes eixos é uma decisão política. É reconhecer que há potência criadora em cada cidade, em cada comunidade, em cada trajetória que dialoga com suas memórias, seus conflitos e suas esperanças. As múltiplas linguagens contempladas pelo projeto — da pintura à performance, da arte popular à arte digital — demonstram abertura, pluralidade e compromisso com a contemporaneidade.
Outro ponto que merece destaque é o cuidado curatorial. A comissão de seleção reúne pesquisadores e artistas com trajetória consistente, capazes de olhar para as produções do território sem exotismo, mas com rigor crítico e sensibilidade social. Isso importa. Importa porque garante processos mais justos, mais atentos às experimentações e às urgências do nosso tempo.
Por isso, faço aqui um chamado direto aos artistas visuais do Agreste de Alagoinhas e do Litoral Norte: participem. Inscrevam seus trabalhos. Ocupem esse espaço que foi pensado para vocês. A arte que vocês produzem dialoga com o mundo, questiona, provoca, cura e transforma — e precisa circular, ser vista, debatida.
O Entroncamento nos lembra que é nas encruzilhadas que novos caminhos se abrem. Que a arte siga sendo instrumento de crítica, de imaginação política e de construção de futuros mais justos. Que os artistas do interior sigam atravessando fronteiras e afirmando, com coragem, seus lugares de fala e de criação.
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