Se a alimentação do seu filho parece se resumir a cereal matinal, nuggets de frango e lanches que sobreviveriam a um apocalipse, você não está sozinho. Alimentos ultraprocessados são a escolha preferida de muitas crianças e, em alguns casos, são os únicos alimentos que elas aceitam comer. Entenda por que isso acontece, e o que você pode fazer a respeito.
Alimentos processados são aqueles que passaram por algum tipo de alteração em relação ao seu estado natural.
Embora alguns processos sejam benéficos, como a pasteurização do leite para eliminar bactérias, o que preocupa pais e especialistas são os alimentos ultraprocessados. Eles passam por métodos industriais que intensificam sabor, textura e prazo de validade por meio da adição de açúcar, sal, gorduras, corantes, aromatizantes e conservantes artificiais.
Os pais conhecem bem alguns desses alimentos: são os fast foods e guloseimas que as crianças adoram. Mas outros se disfarçam de opções saudáveis, como iogurtes aromatizados e bolinhos industrializados.
Esses produtos oferecem pouco ou nenhum valor nutricional, motivo pelo qual as diretrizes alimentares recomendam restringi-los. Mesmo assim, esses “alimentos ocasionais” representam cerca de um terço da ingestão calórica diária de crianças australianas.
Alimentos ultraprocessados são projetados para serem viciantes. A combinação de açúcar, sal e gordura ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando substâncias que provocam sensação de prazer.
A evolução também contribui: fomos programados para buscar alimentos ricos em açúcar e gordura como forma de sobrevivência, herança dos nossos ancestrais caçadores-coletores.
Cerca de uma em cada duas crianças passa por uma fase de seletividade alimentar. Essa resistência a novos alimentos também tem origem evolutiva: era uma forma de evitar a ingestão de substâncias potencialmente tóxicas.
Por isso, muitas crianças preferem alimentos ultraprocessados como nuggets, batatas fritas e cereais matinais. Esses produtos são familiares, não ameaçadores, têm sabores suaves e cores neutras: muitas vezes semelhantes ao leite materno e aos primeiros alimentos sólidos da infância.
De anúncios no YouTube a prateleiras estrategicamente posicionadas no supermercado, as crianças são bombardeadas por campanhas que estimulam o consumo desses alimentos, e pressionam os pais a comprá-los.
O consumo excessivo de alimentos ultraprocessados está associado a diversos impactos negativos:
Refeições em família são uma oportunidade para demonstrar bons hábitos alimentares. Sente-se à mesa, compartilhe a mesma refeição e mantenha os aparelhos eletrônicos afastados.
Pesquisas mostram que são necessárias de 8 a 10 exposições a um novo alimento antes que a criança aceite experimentá-lo. Ofereça regularmente, incentive a provar, mas sem pressionar.
Evite oferecer sobremesas como recompensa por comer algo saudável: isso só aumenta a preferência por alimentos menos nutritivos.
A fome também ajuda: reduza ou evite lanches por pelo menos uma ou duas horas antes das refeições.
Crianças estão mais dispostas a experimentar algo novo quando o prato tem elementos familiares. Tente trocar ingredientes: use lentilhas no lugar da carne moída no molho bolonhesa ou asse cenouras para criar “batatinhas laranjas”. Ralar vegetais e misturá-los ao molho também ajuda.
Apresente os alimentos de forma lúdica: varie cores, texturas e formatos no prato. Mudar o local da refeição — como fazer um piquenique — também pode tornar a experiência mais divertida e especial.
Explicar, de forma adequada à idade, a função dos alimentos ajuda a criar consciência alimentar:
Crianças que ajudam a cozinhar tendem a se interessar mais pelos alimentos saudáveis. Deixe que escolham receitas e realizem tarefas adequadas à idade, como misturar ou picar. Participar da preparação aumenta o orgulho e a chance de provarem o que ajudaram a fazer.
Leva cerca de dois meses para formar um novo hábito: por isso, é normal enfrentar resistência no início. Mas, com persistência, é possível redirecionar o gosto infantil por ultraprocessados e construir uma relação mais saudável com a comida que dure a vida inteira.
*Nick Fuller é diretor de Ensaios Clínicos do Departamento de Endocrinologia do Hospital Royal Prince Alfred na Universidade de Sydney, Austrália. Ele também é autor do livro Healthy Parents, Healthy Kids – Six Steps to Total Family Wellness (Pais saudáveis, filhos saudáveis – Seis passos para o bem-estar total da família).
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o original.
Mín. 17° Máx. 29°
Mín. 18° Máx. 27°
Chuvas esparsasMín. 18° Máx. 28°
Chuvas esparsas